terça-feira, 27 de abril de 2010

Senhor, minha alma grita.

http://www.youtube.com/watch?v=kdvTb81B5Gw



Hoje, senhor, não lhe peço conhecimento. Não lhe peço coragem, não lhe peço silêncio. Quero apenas sorrir, sozinha e encantada com o vento, recostada em uma cadeira desconfortável, lembrando de tudo que fez por mim. Quero respirar esse ar levinho que me está rondando, deslizar os dedos pelo teclado e escrever qualquer coisa como quem toca um belo e branco piano de calda. E degustar minhas palavras como o pianista faz com sua música. Quero saborear o amargo e o doce, a agitação de cada ritmo, de cada palavra. Quero queimar a pontinha da língua com uma bebida quente, e então afastar o objeto e fechar os lábios com dor. Fechar os olhos em meio segundo e abrir bem devagar. Beber um copo com água morna, daquela jarra que acabou de ser cheia e colocada dentro de geladeira, e pensar em como poderia estar gelada.

Quero, senhor... errar um desenho. Me olhar no espelho e não gostar do que vejo. Sentar na cama macia e não me satisfazer com o quarto que tenho, olhar a minha volta e imaginar o cantinho perfeito. Pegar uma prova de história e ver que tirei menos que sete, me entristecer. Observar minhas unhas com um ar de orgulho apaixonado, feliz por vê-las crescer como sempre desejei, e me desanimar ao me deparar com algumas quebradas. Quero sorrir e saber que meu sorriso não é tão bonito, tocar minha face e pensar em algum método cirúrgico para diminuir meu nariz. Quero deitar na cama sozinha e lembrar em como é não me apaixonar, em como é não saber se gosta ou não de alguém.

Hoje, meu Deus, vou enrolar meus joelhos com meus próprios braços; vou molhá-los com minhas lágrimas frias enquanto roço de leve meus dentes na pele. Vou chorar baixinho, evitando sons, com medo de que alguém que passa pelo lado de fora da porta entre e me venha questionar o humor. Vou orar cantando enquanto a cachoeira segue seu caminho pelos olhos abatidos. Vou respirar fundo pedindo, não por mim, mas pelos meus amigos. Vou me sentir mal por quem sou e pelo que tenho. Vou sentir correr nas veias o sangue de séculos revestido de guerra e dor. E então... quero sentir o cheiro da chuva do lado de fora, quero olhar para o chão com olhos marejados e ver as linhas do taco embaçadas.

Eu quero, senhor, hoje... Lhe agradecer por me amar. Por amar uma frágil menina que nunca de verdade age com todo seu potencial, que tem medo de ir mais alto porque sabe que pode desafinar. Por ouvir todas as noites o meu choro inconformado, ainda que a culpa de tudo seja do homem, e não sua. Quero lhe agradecer, pai de tudo, pela energia boa que me traz. Por desafiar uma ciência de atração, e me trazer uma sensação boa quando tudo que emito são pensamentos sobre o lado negativo de viver. Quero te amar, meu Pai, porque me amas. Quero me entregar, meu Pai, porque sou fraca. Quero sorrir, meu Deus, porque hoje choro em seu colo. Porque grito seu nome e quando o faço sinto sua mão me acalmar. Sinto você me dando seu coração e acalmando o sangue que pulsava agitado em mim. Quero, senhor... seguir os passos de um filho teu. Ainda que eu seja crucificada no final, meu Pai, eu vou sangrar pelo amor. E eu vou amar cada um que me rejeitar um dia, assim como você, Paizinho, ama a mim.

Senhor... Obrigada por amar uma alma tão triste e insatisfeita.

9 comentários:

  1. Hahaha, que flash, acabei de postar e você Leu, HAHA. Que bom que gostou, meu amor, e obrigada por ler. (:

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  2. Que belíssimo texto! Tendo ao fundo Apocalyptica tudo ficou mais sensível ainda...
    Belas palavras de confissão.

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  3. Obrigada, meu anjo.
    Sim, sim, a música sempre dá um toque final aos meus textos, e inicial também, já que escrevo ao som delas. Obrigada! *-*

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  4. Mesmo? Ah, que lindo, que bom! Obrigada!

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  5. Este comentário foi removido pelo autor.

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